terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

BEC: Once Brothers, por Giuliano

A partir de hoje, o Bala na Cesta passa a receber sugestões dos amigos para algumas seções do blog. Para começar, Giuliano Deliberador, leitor fiel deste espaço, fala sobre Once Brothers, documentário exibido pela ESPN recentemente, aqui no "Basquete é Cultura". Conta aí, Giuliano!

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por Giuliano Savioli Deliberador (foto)

A década de 90 testemunhou algumas das mudanças mais dramáticas que o mundo viveu no Século XX. Em seguida à queda da União Soviética, que polarizava a busca da hegemonia mundial com os Estados Unidos, uma série de acontecimentos sacudiu o mundo, principalmente os países até então sob a chamada Cortina de Ferro, órbita de influência da URSS no Leste Europeu. Seguindo a derrocada da potência comunista, países surgiram e se desintegraram em processos mais ou menos pacíficos. Nenhum deles, porém, experimentou mudanças tão sangrentas quanto a então Iugoslávia.

A Iugoslávia era uma Federação que congregava seis diferentes nações sob a mão de ferro do Marechal Tito, ditador que governou o país desde a expulsão das tropas nazistas durante a 2ª Guerra Mundial. Com a sua morte, e o vácuo de poder derivado da queda do comunismo, o país viu renascerem rivalidades históricas entre as nações que o formavam, implodindo numa guerra sem precedentes. País de longa tradição no basquete, a Iugoslávia tinha na época uma das seleções mais fortes do mundo (campeã mundial em 1990). E essa seleção, que à imagem e semelhança do próprio país, era um caldo que reunia sérvios, croatas, macedônios e montenegrinos, no qual destacavam-se o pivô Vlade Divac, sérvio, e o armador Drazen Petrovic, de origem croata, dois dos maiores jogadores da história do basquete europeu. Ambos não poderiam passar incólume à guerra que destruiu o país.

O filme Once Brothers, produzido pela NBA Enterteinment para a série 30 for 30 da ESPN americana, procura retratar como a guerra que corria na Iugoslávia afetou a relação entre os dois craques daquela seleção. Até o esfacelamento do país, ambos eram muito próximos, e dividiam o quarto na concentrações da seleção desde a juventude. Porém, um episódio até certo ponto fortuito na comemoração do título mundial de 1990 mudou o rumo das coisas. A entrada de um torcedor na quadra carregando a bandeira do movimento nacionalista croata, e a imediata reação de Divac no sentido de escorraçá-lo dali para mostrar ao mundo uma Iugoslávia unida acabou servindo de pretexto para uma campanha de demonização do pivô sérvio junto à mídia croata, o que acabou contaminando Petrovic, que, rompendo uma amizade que havia se aprofundado quando ambos penetraram no até então fechado mercado da NBA, passou a tratar Divac com absoluta frieza e até um certo desprezo.

Narrado pelo próprio Divac em primeira pessoa, o filme é espetacular porque, ao mesmo tempo em que celebra a trajetória desses dois grandes ídolos, não descuida de retratá-los em sua dimensão mais humana, com seus erros e acertos. É impossível não imaginar a dor de Divac ao perceber que a morte precoce de Petrovic impediria qualquer tentativa de reconciliação futura. Da mesma forma, impressiona a reação das pessoas nas ruas de Zagreb, mesmo mais de uma década depois do fim das hostilidades, que ignoravam a presença do outrora ídolo local, quando não acusavam-no de genocida, o que mostra que feridas de conflitos como aquele não se curam facilmente, nem mesmo com a existência de um Tribunal Internacional criado pela ONU para julgar os crimes cometidos (aliás, por ambos os lados) naquela guerra.

Para nós, fãs, "Once Brothers" é uma obra obrigatória. Inclusive para deixar na cabeça de todos a grande dúvida: poderia a grande seleção iugoslava, completa, fazer frente ao Dream Team dos EUA em Barcelona?

12 comentários:

Anônimo disse...

Bala, o documentário é belissimo, muito bem feito e falta elogios.

Agora o time era fantastico, talvez não desse pra ganhar do Dream Team.
Mais com certeza faria frente, principalmente por que juntava talento, equilibrio, vontade, companherismo e entrosamento.

Abs

Alexandre Reis

Ps. Coloca ai a seleção campeã mundial em 1990, pros amigos poderem ver o timaço que era.

Giuliano disse...

Alexandre,
Segundo o site da FIBA, o elenco da Iugoslávia em 1990 era:

Drazen PETROVIC
Velimir PERASOVIC
Zoran CUTURA
Toni KUKOC
Zarko PASPALJ
Jurij ZDOVC
Zelimir OBRADOVIC
Radisav CURCIC
Vlade DIVAC
Arijan KOMAZEC
Zoran JOVANOVIC
Zoran SAVIC

Como se vê, uma coleção de craques. Pessoalmente, eu concordo, acho que o Dream Team levaria a melhor. Porém, com toda certeza seria muito mais duro do que foi contra a Croácia, que aliás tinha em 1992 4 jogadores desse time (Petrovic, Kukoc, Perasovic e Komasec). Uma pena que a história não tenha permitido esse confronto.
Abraço

Anônimo disse...

O esporte as vezes e engraçado, lembro-me da epoca e dos comentarios e falatorios a respeito, todos achavam uma grande perda não ter podido haver este confronto, certamente o time americano ganharia, mas seria um encontro inesquecivel.
Pena Petrovic ter morrido tão jovem, e com tanto para mostrar!

Fernanda Menegari Querido disse...

Giu, parabéns pelo texto!Apesar de eu não entender tanto assim de basquete e já ter jogado quando mais nova, a ligação entre esporte e contexto histórico é indissociável.

Parabéns pela visão crítica que você tem em descrever o documentário!!!

Precisamos de mais comentaristas esportivos como você! Principalmente no futebol!!rsrsr

Abraço!

Fernanda Menegari Querido

Fernanda Menegari Querido disse...

Giu, parabéns pelo texto!Apesar de eu não entender tanto assim de basquete e já ter jogado quando mais nova, a ligação entre esporte e contexto histórico é indissociável.

Parabéns pela visão crítica que você tem em descrever o documentário!!!

Precisamos de mais comentaristas esportivos como você! Principalmente no futebol!!rsrsr

Abraço!

Fernanda Menegari Querido

Fernanda Menegari Querido disse...

Giu, parabéns pelo texto!Apesar de eu não entender tanto assim de basquete e já ter jogado quando mais nova, a ligação entre esporte e contexto histórico é indissociável.

Parabéns pela visão crítica que você tem em descrever o documentário!!!

Precisamos de mais comentaristas esportivos como você! Principalmente no futebol!!rsrsr

Abraço!

Fernanda Menegari Querido

Baralhão disse...

Bala, parabéns pela iniciativa. Giuliano, parabéns pela pesquisa e pelo texto, e bem-vindo à sessão corneta:
"...implodindo numa guerra sem precedentes." A guerra na região dos Balcãs tinha todos os precedentes, a paz atual é que não tem.
"Pena que a história não tenha permitido esse confronto." Na minha opinião, pena que a 'história' tenha permitido, um dia, a existência da Iugoslávia.

Giuliano disse...

Baralhão,
É claro que a guerra tinha precedentes. Aliás, qual guerra não tem? Não há um centímetro quadrado nesse planeta que não tenha sido alvo de algum tipo de disputa territorial que de alguma forma deu causa a um conflito armado em que alguém matou alguém. O que eu quis ressaltar foi o quanto ela foi sanguinária, insana, violenta ao extremo, ao mesmo tempo em que não teve nada parecido em nenhum dos países do leste europeu com o fim da URSS. Era a isso que eu me referia. E a paz tem sim precedente, não se esqueça que sob o jogo do Mal. Tito não foi registrado nenhum conflito dessas proporções naquele pedaço.
Em relação à questão do confronto, óbvio que perto da matança que houve ali um jogo de basquete não teria importância alguma. Porém, esse é um blog de basquete, e nesse sentido as coisas devem ser postas em perspectiva.
De qualquer forma, agradeço o comentário e os parabéns. A ideia era mesmo promover o debate.
Abraço!

RASBRITO disse...

O filme é espetacular! Na verdade, toda a serie 30/30 da ESPN é de se tirar o chapéu. Tem para fans de todos os esportes.
Quanto ao filme em questão... é emocionante ver os primordios dessa geração espetacular em plena formação. Muito triste que toda a camaradagem e fraternidade tenham sido vitimas da religião, politica e interesses.
A cena final do documentario é muito emocionante.
Recomendadissimo!

Anônimo disse...

Sensacional pra quem gosta de política OU esporte OU de um bom filme. Resumindo: Sensacional, emocionante e quem assistir não se arrependerá!

Eduardo disse...

O melhor documentário de esportes que eu já vi, simplesmente fantástico.

Anônimo disse...

Guerra é uma merda mesmo, separa até melhores amigos. Pena que o Drazen tenha morrido ele era genial.
Fantástico documentário, emocionante.