segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Midas australiano

A vida de Tom Maher se confunde com a reviravolta do basquete australiano. Contratado em 1993 para ser o mentor da transformação da modalidade no país, Tom contou com o trabalho do Comitê Olímpico local para também colher seus frutos. Foi a partir disso que, três anos depois e ainda com uma geração que misturava veteranas talentosas (como a sua esposa, Robyn, por exemplo) a promessas, que ele conseguiu a sua primeira medalha (bronze nos Jogos de Atlanta). E assim o técnico seguiu. Outros bronze (no Mundial de 1998) e uma prata (nos Jogos de Sydney) fazem dele um dos maiores vencedores do basquete feminino. Com 57 anos e depois de passagens pelas seleções de Nova Zelândia e China (quarta colocação em Pequim, 2008), Maher agora se dedica a duas árduas missões: desenvolver jovens do Bulleen Boomers, da WNBL (a liga australiana que ele já conquistou sete vezes, que cresce a cada dia e que acaba de trazer Lauren Jackson de volta), e fazer do time da Grã-Bretanha uma seleção competitiva para os Jogos de 2012 em Londres. Por isso o Bala na Cesta o procurou: para falar de desenvolvimento de talentos, da liga local australiana, de suas experiências e muito mais. Divirta-se com Tom Maher, Hall of Famer do basquete australiano.

BALA NA CESTA: Como técnico, você é um dos maiores vencedores do basquete feminino. Entre 1993 e 2000, quando dirigiu a seleção australiana, obteve duas medalhas olímpicas (bronze em 1996 e prata em 2000) e um bronze no Mundial de 1998. Como foi a transformação da Austrália neste período?
TOM MAHER: O basquete australiano cresceu rapidamente quando soube conciliar técnicas de defesa com a já existente mentalidade que a gente já tinha em defender (sem saber direito como fazer, obviamente). Foi um processo árduo, mas quando conseguimos, vencemos e prosperamos.

-- O basquete australiano cresceu no mesmo período em que o brasileiro regrediu. Como um país sem tanta tradição se transformou em um dos maiores do mundo do basquete?
-- Acho que o basquete brasileiro tem uma tradição imensa e produziu grandes jogadoras nos últimos anos. No momento, aparentemente vejo que o Campeonato Nacional de vocês está patinando, e isso não é bom. Na Austrália temos uma vantagem: além de estarmos criando uma cultura de massificação da WNBL entre o público consumidor, há o Instituto do Esporte Australiano (AIS), que cuida dos jovens talentos de todos os esportes. Os melhores entre 16 e 17 anos já jogam na liga. É um processo completo: desde a formação de fundamentos, psicológica e de cidadania, até a “entrega” aos clubes que potencializarão as suas capacidades.

-- Você dirige o Bulleen Boomers, da WNBL (a liga local). Como é o torneio por aí? Um grande chamariz é a nova fornada de jovens que vêm surgindo, certo? Você, por exemplo, treina duas delas, Elyse Penaluna e Liz Combage. Como é este trabalho de formação?
-- A WNBL é uma liga composta por dez times de todas as regiões da Austrália. São 11 jogos dentro de casa, e outros 11 fora. Acho que ainda não somos uma liga realmente de elite, mas apenas a WNBA, a Euroliga e a Liga Russa são melhores que nós. Sofremos um pouco por causa do calendário, e por isso as nossas melhores jogadoras não atuavam por aqui. Mas isso vem mudando, porque estamos na fase de transição entre uma WNBL semi-profissional e outra profissional (futuro bem próximo). Assim sendo, aquelas que ganham muito dinheiro fora não vêm para cá atuar, e mesmo assim creio que temos um grande campeonato. Elyse e Liz jogam comigo porque temos uma filosofia de desenvolver os jogadores no Bulleen. Elas sabem que o nosso foco é na formação, e que essa é uma grande oportunidade para sejam conhecidas e em breve estar no time adulto australiano.

-- Pelo que você diz, há uma atenção imensa com a formação do atleta. Como é este trabalho neste sentido?
-- Nós, da Austrália, temos tido bons resultados nas categorias inferiores principalmente porque há uma equipe do AIS jogando na WNBL. Eles perdem muitos jogos, mas seu objetivo principal é a formação das atletas. Isso é muito claro. Nosso foco aqui na WNBL, sinceramente, não é em verificar quantas partidas o jovem atleta ganha. O lance é: temos que fazer estes talentos sustentarem seus desempenhos durante toda a carreira. Só colocar no time de cima não adianta. O correto é formá-los e dar-lhes todas as ferramentas para que possam desempenhar o melhor durante muito tempo.

-- Você treinou grandes jogadoras, grandes times e em grandes torneios. Quando você se recorda destes momentos, qual é o maior deles?
-- Cara, eu tenho tantas memórias, e grandes memórias, mas uma me chama mais atenção: foi quando treinei a minha esposa (Robyn Maher, na foto ao lado) como capitã do time em Atlanta, 1996. Foi realmente emocionante. De todo modo, não gosto de colocar apenas um momento como o melhor, porque tive ótimas experiências na China, nos Jogos de Atenas com a Nova Zelândia e também com meus sete títulos na WNBL. São muitas emoções, né?

2 comentários:

Duda 11 disse...

Muito legal Bala! Confesso que não esperava o papo logo com o Tom Maher! Mas foi interessante saber um pouco de como funciona a estrutura do basquete feminino australiano hoje. É a já batida frase "quem planta, colhe". Ótimo exemplo!

Henrique Lima disse...

Excelente. Genial mesmo.

Deviam ler isso na CBB e ir à Australia tentar aprender algo.

Ficar só no discurso não dá.

Mas, aquela velha questão, já temos todos os sabe-tudo por aqui ne ?
Pra que ir na Argentina, Espanha,Australia, Turquia, Grécia.. é perda de tempo nao é mesmo ?!