sábado, 13 de junho de 2009

Do Bert, com emoção

Bert é autor do Painel do Basquete Feminino, o melhor blog de basquete do país.
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A seleção feminina de basquete ficou na décima primeira (a penúltima) colocação nos Jogos Olímpicos de Pequim, no ano passado. O que você pensaria de mim se eu afirmasse que no Mundial do ano que vem o ouro será nosso? Hospício, não é?

Pois há quinze anos era isso que acontecia. A seleção brasileira ganhava o ouro no Mundial da Austrália. Dois anos antes, uma extraordinária geração de jogadoras havia sentido um gosto amargo na estréia olímpica. Em Barcelona-92, Hortência, Paula, Janeth, Ruth, Marta, Vânia Hernandes, Helen, Adriana, Nádia, Joyce, Zezé e Simone Pontello venceram apenas dois jogos. Ambos contra o mesmo adversário: a Itália. Acabaram na sétima (também penúltima) colocação. A frustração era grande para as jogadoras e para fãs, como eu, que sabiam que aquela geração merecia mais.

O cenário era pouco animador, quando o então presidente da CBB Renato Brito Cunha anunciou o ilustre desconhecido Miguel Ângelo da Luz para ocupar a vaga de Maria Helena Cardoso.Até hoje me debruço tentando entender a mágica desse movimento, que nos levou em três anos a um título mundial e uma prata olímpica.

Já tentei entender bastante essa transmutação, mas acho que nem os personagens da história sabem ao certo identificar como chegamos lá. Me parece que realmente algo conspirava a favor e houve um encontro extremamente feliz entre as atletas mais experientes, um grupo renovado e a nova (e competente) comissão técnica. Além disso, houve ainda uma grande ousadia a nosso favor. Uma coragem que infelizmente sumiu das nossas comissões técnicas desde então.

Em sua primeira convocação (para o Sul-Americano-1993), Miguel manteve o trio Janeth-Marta-Ruth e testou uma série de promessas; entre as quais escolheu: Helen (20 anos), Adriana (22), Silvinha (18), Lígia (19), Roseli (21), Yngrid (17), Claudinha (18), Alessandra (19), Cíntia Tuiú (18) e Leila (18). Na Copa América acrescentou Paula e Hortência e o grupo já esboçou uma bela química, com vitórias sobre uma forte seleção cubana e sobre um excelente grupo norte-americano.

No ano seguinte, na convocação para o Mundial, mais surpresas. Marta estava de fora. E peitar uma Marta não era pouca coisa. Se hoje peitar uma Iziane está dando nisso que vocês estão vendo, imagine só o que era peitar uma Marta. Não só pela qualidade da jogadora, mas porque (assim como dizem hoje) “não havia outra opção para a seleção em nível internacional” ou então porque “Fulana [a possível substituta] tem potencial, mas joga três minutos no clube”.

Pois Miguel e sua comissão deram vez a várias dessas “Fulanas” e apostaram nelas. Assim foi com Alessandra, que, em clube, encarava longo período no banco na Cesp/Unimep/Piracicaba. Ou com Cíntia, que dividia o garrafão com Elena Chakirova, Ruth e Karina na Nossa Caixa/Ponte Preta.

Essa aposta parece ter feito a diferença. Dentro da quadra, todo mundo já sabe. Fora dela, foi um período bem mais calmo, tanto em relação aos treinadores que o antecederam (Maria Helena Cardoso) e sucederam (Antônio Carlos Barbosa e Paulo Bassul).

Essas apostas – vale o registro – continuaram até o último torneio dessa comissão técnica (Olimpíadas de Atlanta, 1996), com Marta reintegrada (no ápice da carreira). Da mesma forma, outra veterana em excelente forma (Branca) ganhou sua oportunidade. Igualmente marcante foi a aposta em uma promissora novata (Silvinha Luz, talvez nas melhores atuações da carreira na seleção) em detrimento de uma excelente veterana (a armadora Nádia). Não havia constrangimento ainda em dar oportunidade a uma atleta com trajetória de destaque em clubes de menor porte (a pivô Cláudia Pastor).

A conquista do Mundial é minha maior alegria como torcedor do basquete. Foi o torneio que deu sentido a minha admiração e que me tirou do peito o amargo deixado desde Barcelona. É basicamente por aquele ouro que sigo acompanhando o basquete, pensando nele, me irritando por ele e querendo um dia revisitar aquela deliciosa sensação.

Passei essas últimas semanas tentando ajudar o Fábio a montar o especial e me deparei com as poucas lembranças das jogadoras. Quando fui examinar as minhas próprias, percebi que o tempo já carregou algumas.

Ainda mais marcante que a final (para mim) é a vitória na semifinal sobre os Estados Unidos. Nos minutos finais, uma das imagens mais lindas é Hortência absolutamente paralisada na marcação, dominada por um choro convulsivo. É de arrepiar.

Da final, lembro-me da transmissão de Luciano do Valle no estúdio da Bandeirantes, com as convidadas Karina, Norminha e Silvinha absolutamente boquiabertas.

E lembro, por fim, do sorriso amarelo de Zheng Haixia. O primeiro, ao dar um toco em Paula, em uma bandeja. Os outros, um pouco mais tarde, ao ser infernizada pela agilidade de Leila e ao alcançar o auge do desconcerto com um toco de Cíntia Tuiú.

Obrigado, meninas.
BERT

15 comentários:

jdinis disse...

Uma pena que Alessandra e Cíntia só tenham surgido no fim de carreira de Hortência e Paula. Em Barcelona o Brasil tinha um grande time e não foi bem por conta da falta de pivôs altas e efetivas.

Vai ser difícil ter outra geração que reúna, num mesmo time, jogadoras como Hortência, Paula, Janeth e Alessandra. Fica a alegria de quem pôde presenciar esses momentos (incluo também a final do PAN de Havana, emocionante!).

Sds.

sta.ignorancia® disse...

Bert, quando crescer quero ser igual a vc!


O sorriso da Haixia no toco q deu na Paula foi de lascar...rs

Anônimo disse...

Parabéns Bert.
Maravilhosa retrospectiva dos fatos.

A analogia Marta-Iziane é realmente uma realidade. É só abrirem os olhos.

Força para o Bassul.......e bye bye seleção para Iziane, até que a máscara e prepotência fiquem de lado (pois os fatos mostram que até a Marta voltou para a seleção na campanha da Olimpiada de Atlanta-- prata)

Marcos disse...

Bert, futuro técnico da seleção!

Anônimo disse...

PAREM DE VALORIZAR O BASQUETE DO FLAMENGO

Anônimo disse...

Estava preocupado com esta serie, pois aguentar estas carioquices por parte dos blogs cariocas,valorizando o desvaneio de uma diretoria transloucada, se achando melhor que NBA, estava demais.
Cairam na real agora, um clube falido,de futebol, que nao paga NINGUEM, monta um super time a revelia dos valores morais,em delerio de um ex diretor e passando o bastao da gestao para um pior ainda, que ao inves de sanar as loucuras, acelera ainda mais os projetos megafantagalaticos, pois ganha dinheiro em cima de tudo e ainda se acham a ultima bolacha do pacote.)onde ja se viu, fazer no HSBC e nao conseguir lotar pela metade.
A NBB nao merecia estar passando por esta final,FORA CALOTEIROS!!!!
Temos que passar a limpo este basquete

Alan de Faria disse...

BERT, FABIO E CIA... VAMOS FAZER UM MOVIMENTO PARA A BAND TRANSMITIR, EM UM DOMINGO QUALQUER, SEI LÁ, DE MADRUGADA, REPETINDO OS HORÁRIOS DO MUNDIAL DA AUSTRALIA, A SEMI E A FINAL... preciso muito REVER esses jogos!

Anônimo disse...

GRANDE IDÉIA!
Confirmo que assistirei

fábio balassiano disse...

alan, to dentro!
alguém precisa começar
abs, fábio

Alan de Faria disse...

preciso do contato do Luciano do Valle... risos... ele ainda está na Band, nao estah? eu posso começar essa campanha...

Bert disse...

Obrigado a todos pelos comentários.

E vamos começar essa campanha, sim!

Abs.

Anônimo disse...

Saudade do BOLACHA narrando nos bons tempos......se reprisarem será sensacional!!!!!!!!!

Anônimo disse...

http://www.lucianodovalle.com.br/

Leandro disse...

O que me deixa mais chateado é saber que uma geração tão forte não foi tão bem aproveitada nos anos posteriores: mundiais de 98, 2002 e 2006 e Olimpiadas de 2004.

Anônimo disse...

CURIOSO

Bala,sucesso total suas matérias sobre o titulo do basquete feminino e desta geração escorada em Paula e Hortencia conseguiram fazer a sua história.Agora uma uma curiosidade,QUEM É O BERT?,voce se apresenta em seu blog,o Rodrigo idem,passei a frequentar este blog,e não encontrei nada acerca do Bert,que demonstra conhecer bastante o basquete feminino,é uma pena que não se apresente verdadeiramene,saindo do anonimato,com certeza suas opiniões e comentários teriam muito mais credibilidade,como os seus do Rodrigo,sem falar do prof.Paulo Murilo.Pense e avalie.