segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Ron Harper fala tudo

Não parece, mas o sonolento rapaz que chega ao hall do hotel em Copacabana possui cinco títulos da NBA. Depois da agitada noite de sexta-feira, o ex-armador Ron Harper, que participou de uma clínica promovida pela liga norte-americana com 40 atletas de Brasil, Argentina, México e Porto Rico, aparece com olhar perdido, mas logo se empolga para falar do que mais ama. Na longa entrevista com o Bala na Cesta, Harper, que hoje aponta Deron Williams (Utah Jazz) como o melhor armador do mundo, fala sobre tudo, sem cortes, sem tarjas, sem nada. Vale a pena conferir.

BALA NA CESTA: Como está sendo o evento? Está dentro do que você esperava?
RON HARPER: Estou gostando muito. Temos visto meninos incríveis aqui, com uma vontade grande de aprender. É legal porque eles nos perguntam, querem saber, são curiosos. Gostei bastante de dois do Brasil, outros da Argentina. O nível é muito bom.

-- Falando um pouco de NBA, você está ansioso para o começo da próxima temporada?
-- Bastante. Acho que os Lakers continuam os favoritíssimos porque possuem o melhor jogador do mundo (Kobe Bryant), o melhor técnico e a melhor dupla de pivôs da liga. Acho que te dei bons motivos, não? A questão, para mim, é quão saudável esse elenco chegará aos playoffs. Mas o Phil Jackson saberá dosar tudo isso para que na pós-temporada eles cheguem bem, muito bem. Podem falar o que quiser do Phil, mas é preciso respeitá-lo. É o cara mais inteligente da liga.

-- Você falou no Kobe como o melhor jogador do mundo, e queria que você falasse um pouco do LeBron James, que postula este, digamos, cargo. O que você achou da atitude dele de sair do Cleveland, e do futuro time do Miami?
-- LeBron é um grande jogador, mas está longe do Kobe Bryant ainda - longe. Não é uma crítica, mas o Kobe já trilhou um caminho diferenciado, só isso. Sobre a mudança do LeBron, te respondo com duas palavras: agente-livre. Nesta situação, ele poderia fazer o que quisesse – e o fez. Talvez não tenha feito da melhor maneira no final, mas fez o que considerou correto. E pronto. Sou de Ohio, moro em Ohio, adoro a cidade, e não fiquei ofendido com o que ele fez. Acho que houve um exagero tremendo nisso tudo. Sobre o time do Miami, no papel é tudo muito lindo, mas existem diferenças entre uma folha com o elenco e a quadra. Mas se não der certo com o Erick Spoelstra, a quem considero um ótimo treinador, o Pat Riley desce da sua sala e assume o time após o All-Star Game.

-- O Jeff Van Gundy disse que esse time do Miami pode bater a marca de 72 vitórias daquele seu time do Chicago...
-- Cara, eu não estou nem aí pro Van Gundy. E sabe por que eu te digo isso tudo? Porque o basquete mudou, o jogo mudou, tudo mudou. Hoje ninguém pode encostar no outro em quadra que o juiz apita falta, dá técnica, expulsa, multa, faz o diabo. Não é que está chato, mas diferente. Se aquele meu time do Chicago jogasse hoje, todo mundo seria desqualificado com faltas, e o Dennis Rodman não chegaria nem ao segundo período. Se as pessoas reclamavam do número de lances-livres do Michael Jordan naquela época, ficariam alucinadas com o número de faltas que ele receberia hoje.

-- Falando em Michael Jordan, você jogou com ele por três anos. É, sem dúvida, o maior de todos os tempos?
-- Sem a menor sombra de dúvida. Você pode discutir o que quiser comigo, mas não isso. Michael Jordan não era só o melhor arremessador, mas o melhor líder, o melhor defensor, o melhor tudo. Apenas como comparação boba: o Kobe é o melhor de uma liga em que não se pode marcar pesado, e chuta 44, 45%. MJ terminou a carreira em um campeonato com jogos bastante físicos com quase 50%. É muita coisa, não?

-- Você parece ter uma adoração por esse time do Chicago, não? Como foi a transformação daquele Ron Harper pontuador do começo da carreira para o Ron Harper cerebral dos Bulls?
-- (Risos) Cara, vou te contar uma história engraçada. No meu primeiro treino com o Chicago, estava tão empolgado de estar ali que não realizei que estava treinando com o melhor (Jordan) e com o segundo melhor (Pippen). Devo ter anotado uns 40, 50 pontos no coletivo. Estava indo tomar banho todo feliz quando o Phil Jackson me chamou em sua sala. No ato, ele me disse: “Você está achando que veio para cá para fazer pontos?”. Naquele momento eu entendi que naquele time eu precisaria marcar, anotar minhas duas ou três bolinhas por partida e coordenar as ações ofensivas. Ou seja: teria que pensar, e pensar muito, antes de fazer qualquer coisa – algo que nunca me havia sido ensinado antes, e pelo qual sou totalmente grato ao Phil, que teve paciência e confiou em mim. Acho que a mágica do jogo de basquete é essa – cada um entender as suas funções no elenco. Isso naquele time do Chicago me fascinava. Com os Lakers foi uma outra situação. Estava prestes a me aposentar, e via naquele grupo um espelho daquilo que eu fora no começo da carreira. Muita luta para conquistar seus objetivos, mas nem sempre da maneira mais inteligente. Tentei orientá-los neste sentido.

-- Você fala na aposentadoria, que deve ser um momento complicado para todo atleta, e em um de seus livros o Phil Jackson diz que tentou fazer com que você voltasse para a terceira temporada com os Lakers. Por que não aceitou?
-- Você sabe quando eu decidi realmente parar? Quando estava em um hall de hotel como este em que nós estamos conversando e me perguntei: “O que estou fazendo aqui?”. Naquele momento sabia que era o meu final. Contei para o Phil sobre isso, e ele entendeu perfeitamente a minha situação. A vida de atleta é ótima, maravilhosa, fui muito feliz nela, mas quando percebi que meu divertimento tinha se transformado em uma profissão, decidi parar. Sempre encarei o basquete como lazer, e é assim que gosto de pensar nele até hoje. Já tive alguns convites para voltar como assistente-técnico (já o foi no Detroit Pistons), mas estou feliz em casa com meus filhos.

19 comentários:

Anônimo disse...

Bala, esta entrevista é ESPETACULAR!!!! Parabens.
Abç Morais.

fábio balassiano disse...

valeu, morais.
achei que esse papo ficou bem legal mesmo!

valeu pela força
fábio

PauloRJ disse...

Muito boa a entrevista Bala...aquele time do Chicago era realmente fantástico...sou torcedor do Lakers e fã do Kobe, mas realmente acho que não vai chegar no nível do Jordan...acho que vai ser muito difícil alguém chegar....como ninguém chegou ao nível do Pelé ainda....

fábio balassiano disse...

fala, paulorj, beleza?
obrigado pela força.
também penso igual a você. não acredito nisso de "nunca haverá alguém como". tá aí o federer que não nos deixa mentir. achávamos que não haveria um borg, um sampras, e veio o fed aí com tudo.

igual ao mj, porém, ainda não veio ninguém. acho o kobe inacreditável, mas os pontos que o harper levanta são espetaculares!

acho que foi melhor papo que tive sobre basquete.

abs, fábio.

Gabriel disse...

Fabio,otima surpresa a presença do Harper aqui no Brasil e seu papo com ele.Sempre foi uma dos meus jogadores favoritos.Sempre uma aula assisti-lo em quadra.Tentava,dentro das minha limitações,emular um pouco do seu jogo cerebral e controle do tempo do time.O q esse cara jogou suas estatisticas não mostram.

E so pra apimentar um pouco seu comentario,quando achamos q haviamos visto de tudo em Federer,surge o supercampeão espanhol e sua canhota magica.O touro Nadal.

Abraço,
Gabriel.

fábio balassiano disse...

fala, gabriel, beleza?
o harper era um dos caras que eu mais gostava de ver - e justamente pelo que ele mencionou, ou seja, o fato de ele ter aprendido a atuar com a cabeça.

sobre a sua pimenta do tênis, eu sou fã do nadal, cara. com o que ele está jogando e com a idade que possui, ele pode chegar mais longe, sim.


abs, fábio

Jander Marques disse...

Que saudades que eu tenho daquele Chicago e os duelos com o NY, Indiana, Houston... O Ron falou uma coisa que eu sempre pensei, não tem como comprar o Jordan com os jogadores de hoje por conta da defesa que é permitida. Imagina com a arbritragem que temos hoje um jogo entre aquele Chicago e o NY do Ewing? Ou o time de NY não terminava nem o primeiro quarto ou o Jordan chegava dos 100 pontos.

Que inveja conversar com um cara desses...

Ótima matério bala... Vai ter um papo com o Bowen?

fábio balassiano disse...

fala, jander, beleza?
passei o bowen. desculpe.

o harper falou isso que você disse no papo. ele disse que o jordan, hj, sairia de alguns jogos com mais de 60 pontos sem fazer muito esforço... ahahahah

essa entrevista eu realmente achei boa! o cara é muito legal!

abs, fábio.

marcelo marques disse...

boa entrevista bala o harper pra mim é subestimado por parte da imprensa americana

o gustavo do palmeiras foi eleito o melhor jogador do evento

e estranhamente foi cortado da seleção u18 na copa america

me contaram no palmeiras q ele brigou com o roese no torneio na alemanha vc sabe algo a respeito?

e se ele tem alguma restrição da cbb de participar do mundial sub19

fábio balassiano disse...

nao sei de nd a respeito, marcelo.

o harper é subestimado mesmo

abs, fábio

Anônimo disse...

Bala,humilhou na entrevista hein. Linda cara,ficou uma parada mtr sadia.

Anônimo disse...

Comentario d cima e meu.
Abraca Lucas Bebe

fábio balassiano disse...

fala, bebê, beleza?
obrigado pela força e pelo comentário, mas quero ver você prometer aqui, pra mim e pros leitores, que quando você conquistar seu primeiro anel da nba a sua primeira entrevista será no bala na cesta!

promete?
ahahaha

abs, fábio

Anônimo disse...

Aaa que isso meu amigo bala,logico que sera aqui a primeira entrevista afinal uma mao lava a outra,tudo bem q gracas a Deus e meu parceiros da equipe mandei bem mas qm ajudou demais aqui na divulgacao do nosso trabalho foi voce pow. Sou mt grato mesmo

fábio balassiano disse...

fechado, bebê!

abs, fábio

Duda 11 disse...

Muito massa a entrevista Bala, parabéns! Sempre fui fã do Harper pela inteligência e calma dele em quadra! E nas palavras, ele mostra pq conquistou tanto na NBA!

Marcus disse...

Parabéns Bala por sua entrevista.
Gostaria de tocar em um ponto: Como seria se o técnico Phil Jackson falasse com a Iziane ou Oscar e falasse assim: “Você está achando que veio para cá para fazer pontos?”.


Fica a sugestão para uma discursão.
Abraços

fábio balassiano disse...

valeu, duda!
marcus, acho que a iziane não entenderia.
sobre o oscar, discordo muito da maioria que acha que ele não marcava.
depois dos 35, 40, não mesmo, mas antes... é só ver os vt's da europa!

abs, fábio

Marcus disse...

Bala, me referi a uma entrevista concedida recentemente pelo Oscar no qual ele dizia que duvidava que o Magnano tiraria ele de quadra. Acho que este espirito é qua não pode haver em qualquer esporte coletivo.

Um grande abraço